Desconfiado, mas livre de preconceito para não atrapalhar a avaliação, fui conhecer o Face. Ainda que ligeiramente mais curto que o novo Uno (3,70/3,77 metros de comprimento) e mais alto que o novo Fox (1,56/1,54 metro de altura), o Face é um hatch-minivan com boas proporções. Não é à toa. O design foi encomendado ao estúdio Bertone, como parte da estratégia de fixação dos carros Chery também na Europa. A casa italiana fez um bom trabalho. Sem fugir do convencional nem fazer uso de linhas radicais, o Face tem personalidade própria. A marca, com apenas 12 anos de existência, também fez sua parte, com uma construção cuidadosa, tanto em alinhamento quanto em espaços livres entre as partes – carroceria e cabine se mostraram muito bem montadas. As lanternas traseiras são os elementos de estilo mais marcante, divididas em dois andares com um aplique cromado entre os níveis.
No interior, mais ousadias estilosas. Para soltar o freio de mão, nada de usar o polegar – aliás, ele é o único que você não vai utilizar. Com formato largo, como se fosse um apoio de braço, ele faz com que você use os outros quatro dedos. Típico caso em que a preocupação com a forma se sobrepôs à funcionalidade. Mas não é o formato pouco ergonômico do freio de estacionamento nem os plásticos rígidos o que desaponta no Face. O problema está mais na pintura (prateada) frágil no painel e nos bancos com espuma de baixa densidade e revestimento com falhas na costura. Para piorar, assento e encosto são estreitos e não há regulagem de altura para o banco do motorista. A posição de dirigir, ainda assim, não é ruim.
Todos os comandos são facilmente alcançados e, em geral, teclas e alavancas têm acionamento suave, sem emperrar. O som é rico em recursos – tem até entrada USB para você espetar um pendrive com até 4 GB de arquivos MP3 –, mas a tela azul com caracteres brancos, grandes e em baixa definição é de gosto duvidoso. Poderia ter seguido a mesma linha do elegante display digital (com informações de consumo instantâneo, hora e hodômetro) no centro do quadro de instrumentos. Outro ponto fraco é o sistema de travamento elétrico das portas, sem acionamento automático tanto para abertura quanto para fechamento.
Em movimento, o Face comete alguns deslizes, mas no geral vai bem. A suspensão com calibragem notadamente voltada para o conforto deixa a carroceria inclinar nas curvas. Nada que assuste tanto quanto o modo como o Face balança acima de 120 km/h, ao sofrer a ação de ventos laterais. Num circuito misto, deu para notar que o câmbio tem relação curta na primeira e na segunda marcha, longa na terceira e quarta e uma quinta “eterna”, ideal para manter o giro baixo em viagens. O ajuste confere agilidade nas saídas e economia na estrada, mas exigirá, como contrapartida, que o motorista esteja sempre trocando de marcha para extrair o máximo desempenho do quatro-cilindros 1.3 16V de 84 cv.
A Chery sabe que o Face não conquistará a confiança do público só por sua carroceria by Bertone e invejável pacote de equipamentos. É preciso mais para alcançar a meta de vender 6 000 unidades em 2010. Para isso, garante a marca, o modelo terá três anos de garantia, revisões de baixo custo e diversas peças de reposição (filtros, pastilhas de freio, bateria e vidros) nacionais, além de um seguro (Auto Seguro Chery) com preço especial, contratado diretamente na concessionária. Enfim, um carro que vem para mudar conceitos e quebrar preconceitos. A missão é dura e começa na próxima página, ao encarar sete concorrentes bem estabelecidos no mercado.
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